terça-feira, 20 de julho de 2010

Propaganda é a alma do negócio

Então, galerinha do mal, quem me conhece sabe que eu sempre quis escrever uma história sobre zumbis. Quem me conhece mais ainda sabe que eu tive a brilhante idéia de misturar zumbis e faroeste. E quem realmente me conhece sabe que eu sempre me achava despreparado para começar a bendita.

Hoje tomei vergonha na cara e comecei. =D

Como já deu pra perceber, a história se passa no velho oeste dos Estados Unidos e vai ter muito sangue, tripas voando, cheiro de pólvora e onomatopéia de tiro. Mas não vou postá-la aqui. Como ela não tem final definido, e eu quero que dure muito tempo, resolvi criar outro blog só pra ela. A história vai se chamar Dead West e vou tentar postar algo a cada duas semanas (mas, obviamente, não vai dar pra fazer isso sempre).

Comecei postando uma introduçãozinha básica, só para situar vocês no ambiente apocalíptico da coisa e amanhã começo a história propriamente dita.

Então, que comece a matança: Dead West

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A meteor to the head

Estou morrendo.

Não agora, mas a morte é inevitável. Logo, estou morrendo.

Eu sei que isso é estúpido, o problema é que às vezes entro em pânico por causa disso. Saber que eu estou aqui, vivinho da silva (ou não) e daqui a 5 minutos um meteoro pode cair na minha cabeça realmente me assusta.

Será que eu vou sentir dor?

Será que vai ser rápido?

Será que eu vou levar um tiro? Uma facada? Ser atropelado? Cair de um lugar alto? Será que vou cometer suicídio? Será que vou morrer de alguma doença? Câncer? Aids? Gripe suína?

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose?

Será que vai cair um meteoro na minha cabeça?

Será que vou ver a tal luz branca que todo mundo fala? Será que vai passar um filme chamado "A medíocre vida de Leonardo Amorim" na minha frente?

O que eu vou pensar quando me der conta que chegou minha vez? Como vou me sentir?

O que será que tem do outro lado?

Não vou mentir, isso me intriga muito. Já quis morrer só pra saber se tinha algo me esperando depois.

Céu? Inferno? Purgatório? Nada? Hooters?

E o pior: quando será?

Cara... pode ser amanhã!!! Eu posso estar lá trabalhando e de repente um meteoro cai na minha cabeça!

Outra coisa que penso muito é se vou ser capaz de fazer tudo que quero antes de morrer.

Lançar livros, ir no Palestra ver o Palmeiras ser campeão da Libertadores (se eu fosse corintiano podia riscar essa da lista, never gonna happen), ir num show do Machine Head, Pain of Salvation, The Black Dahlia Murder, Devildriver ou Rush (se der tudo certo, dia 08/10 estou no MorumBieber mijando no escudo dos bambis ao som de Leave That Thing Alone), morar no exterior, assistir todos os filmes da Torre Negra, conhecer o Stephen King, montar uma banda e lançar cds...

Até que minha lista não é muito extensa.

O pior de tudo é não saber nada disso. Mas por via das dúvidas, vou começar a monitorar os meteoros que rodeiam o planeta.

Também gostaria de saber o que vai acontecer depois da minha morte. Como vai ser meu
funeral? Vai ter a bandeira do Palmeiras que eu pedi? Quem vai? Vai ser no Colina da
Saudade? Vai cair um meteoro lá?

Mas de uma coisa eu sei. Definitivamente não quero morrer afogado ou queimado.

Tá, definitivamente não quero morrer, mas já que não tem jeito, não quero que seja afogado ou queimado.

Prefiro que caia um meteoro na minha cabeça.

Uma vez assisti um filme onde o cara tá numa caverna, e depois de caminhar um pouco ele acha um laguinho. A água é bem cristalina, e mesmo com a escuridão, ele vê perfeitamente dentro da água. Ele entra, começa a nadar e logo é forçado a mergulhar, devido a uma parede de pedra. Ele olha e vê a luz do dia um pouco à frente. Então começa a nadar, totalmente submerso, pois a água vai até o "teto". Depois de um tempo ele começa a perder o fôlego e não vê sinal da saída, então acha melhor voltar. Mas ele já havia nadado muito, e não consegue chegar ao lugar onde estava antes. Começa a se desesperar, nadar pra qualquer lado, sem encontrar um lugar onde possa colocar a cabeça pra fora d'água. Ele morre ali, boiando rente ao teto.

Aposto meu psp que ele pensou que seria melhor que caísse um meteoro na cabeça dele. Seria bem mais rápido.

Outro dia li um artigo no Wikipedia sobre um monge budista que ateou fogo nele mesmo em protesto a alguma coisa. As pessoas presentes falaram que ele não se moveu ou emitiu sons. Depois de alguns segundos o cheiro de carne queimada começou a subir, até ficar insuportável, e ele continuou sentado, imóvel, calado, até virar churrasquinho. Monges têm um controle incrível sobre seu corpo e mente, mas isso não impede ninguém de sentir uma dor horrível quando se queima. Imagina queimar até virar combustível de churrasqueira.

Meteoro me livre.

Será que só eu perco tempo pensando nisso? Ou existem mais Leonardos por aí piscando pelo mesmo motivo?

Como falei antes, a morte é inevitável, então deveria ser aceita como algo natural, parte da vida. Mas como a gente pode simplesmente aceitar que um dia vamos deixar de existir? Eu estou acostumado a estar vivo, então a idéia de morrer um dia me parece absurda. Mas, como já dizia um sábio desconhecido, para morrer basta estar vivo.

E que algum meteoro tenha uma rota de colisão fixa com sua cabeça.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Canção do lixo

Seeeeeeeenta que lá vem a história...

29/04/2003
Eu tinha 16 anos. Estava cursando o primeiro ano do ensino médio no CEFET-SE, aquele centro de formação de criminosos.
A professora de português/literatura passou um trabalho, onde deveríamos pegar um poema e adaptá-lo à nossa realidade.
Bom, aqui em Aracaju tem um conjunto chamado Padre Pedro, também conhecido como Terra Dura (Hardlands, para os íntimos), que é bastante conhecido por um lixão que tem lá.
É... vocês sabem como minha mente trabalha. (6)

Canção do Lixo

Minha terra é dura.
Onde lixo vamos catar;
Os urubus que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais fumaça,
Nossas várzeas têm mais flores (mortas),
Nossos bosques, que bosques?
Nossa vida mais horrores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu cá;
Minha terra é dura,
Onde lixo vamos catar.

Minha terra tem fedores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar -sozinho, à noite-
Mais prazer encontro eu cá;
Minha terra é dura,
Onde lixo vamos catar.

Não permita, Deus, que eu morra,
Sem que eu possa ajudar;
Os catadores que lá vivem
Para que prazer possamos encontrar lá;
Minha terra é dura,
Onde lixo vamos catar.

domingo, 27 de junho de 2010

Ler ou não ler, eis a questão

Brasileiro tem preguiça de ler. Isso é fato.

Muita gente fala que não lê porque não tem tempo. Pura ladainha. Não lê porque tem preguiça mesmo. Até eu, que gosto pra caramba de ler, às vezes tenho preguiça. Pra vocês terem uma idéia, comprei O Iluminado tem umas 2 semanas e até agora só li 2 capítulos. A história tá foda, não é cansativo, tem tudo pra ser aquele livro que a gente devora em 2 dias ou menos. Mas, esses dias, eu tô com uma preguiça absurda de parar para ler.

Quem não gosta de ler e admite, tudo bem. Mas não gostar/tem preguiça e ficar dizendo que é falta de tempo, pera lá, né?

Aí eu recebo um e-mail no trabalho dizendo que eu estou "altorizado" a fazer a "auteração" na data da viagem do secretário de não sei o quê.

Essa pessoa tem tempo pra ler? Provavelmente tem. Mas o gasta indo pra Aviões Elétrico, Pré-Caju, Forró do Caralho a Quatro, para algum posto de gasolina procurar alguém pra ir pro motel, etc. E depois quer dizer que não tem tempo.

E o pior de tudo é que a própria cultura brasileira incentiva isso. Vocês já viram alguma propaganda de livro na tv? Eu não. Tudo bem que quase não assisto tv, mas quando assisto, passam milhares de propagandas de cd e dvd de Maria Cecília e Rodolfo, Luan Santana, Bonde do Forró, e essas vuvuzelas que algumas pessoas insistem em chamar de música.

Achando que não era o bastante, as escolas começaram a incentivar as pessoas a parar de comprar e ler livros. Essa semana vi um outdoor de um determinado colégio que dizia "Nestas férias, não deixe de ler. Alugue filme legendado".

MEU PAU DE ASA!

Se, nessas férias, você não quer deixar de ler, COMPRE UM LIVRO! Peça emprestado a algum amigo, vá na biblioteca da escola, baixe na internet, o que for. Mas alugar um filme legendado para dizer que leu alguma coisa nas férias é demais. Ano que vem vão lançar a campanha "Nestas férias, não deixe de ler. Leia este outdoor todo dia".

Porra, é revoltante. Não tô falando como alguém que escreve e pretende viver disto, tô falando como uma pessoa qualquer. É por isso que às vezes me acho velho por gostar de ler, jogar xadrez, etc. Essa juventude tá perdida.

Mas também, com um analfabeto como presidente, o que mais podia se esperar?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Ensaio sobre a cegueira"

Hoje fui no oftalmologista ver se estava ficando cego (juro que o trocadilho não foi intencional).

Para situar vocês, há uns 3 dias venho sentindo uma ardência nos olhos, junto com uma coceira. Tava incomodando muito e eu não conseguia fazer as coisas direito. Então marquei uma consulta pra ver o que tinha de errado.

Saí do trabalho mais cedo, cheguei lá em cima da hora, a leitora de impressão digital se recusou a me reconhecer, como sempre, mas, por fim, consegui ser atendido. Depois de muito remexer nos meus olhos, a médica mandou dilatar minhas pupilas. A enfermeira veio e aplicou o colírio, e em 10 minutos eu não enxergava mais nada.

Cegueira.

Tá, eu não estava completamente cego, mas estava enxergando MUITO mal. Tudo extremamente turvo. Então desisti de tentar enxergar e fechei os olhos.

Comecei a escutar as conversas ao meu redor.

O som da tv.

Os passos. Muitos deles.

De repente percebi que também sentia os cheiros.

Primeiro o cheiro do café na máquina perto de mim.

Depois o cheiro enjoativo do meu sapato (dica: nunca compre sapatos na Millenium calçados, o cheiro vai te assombrar pelo resto da sua vida)

Senti o vento gelado do ar-condicionado deslizar sobre minha pele.

Eu já havia esquecido do mundo ao meu redor, apesar de tudo que eu ouvia e sentia me lembrar dele.

Confuso isso.

Mas toda a confusão que eu sentia, todas as dúvidas simplesmente sumiram.

Eu consegui despertar um senso mais aguçado das coisas. Como se eu pudesse percebê-las em outro nível.

Nós estamos acostumados a VER tudo, mas raramente ouvimos ou sentimos. Até quando ouvimos uma música, nós visualizamos o artista tocando. Não somos nada sem nossa visão.

Mas, depois de perdê-la temporariamente, "vi" como meus outros sentidos também importam. Agora, estou prestando total atenção no som das teclas quando as pressiono, no som dos passos e da conversa da minha família, no som do ventilador, no som da minha respiração. Também estou sentindo o vento que vem dele e no cheiro da comida lá embaixo. Estou até prestando atenção no som da minha mão deslizando pelos meus cabelos quando os ajeito ou das minhas unhas coçando a barba.

É incrível como essas coisas passam despercebidas. É como respirar, você nunca lembra até alguém falar sobre. Numa escala maior, é como a vida. Quando você se dá conta, já está com 80 anos, sentado numa poltrona, mudando o canal da tv e imaginando quanto tempo vai demorar até que a morte tome vergonha na cara e venha te buscar.

Se você deixar as coisas passarem despercebidas na sua frente, você não está vivendo, está simplesmente vivo. Se você só vê as coisas, mas não as percebe completamente, você está no automático.

E eu devo reconhecer, até hoje vivia no automático. Mas graças a duas gotas de colírio em cada olho, percebi as coisas de uma maneira mais profunda.

Depois de vinte e três anos, consegui me sentir menos distante das coisas.

Obrigado, Mydriacyl.

Muito obrigado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mentiras verdadeiras

Não sei porque as pessoas fazem tanto estardalhaço por causa de mentiras.

Antes de mais nada, é melhor deixar claro que eu não acho que mentira seja uma coisa linda, só não acho que seja algo tão horrível assim. Afinal é uma característica inerente do ser humano.

Quando você corta o cabelo e pergunta para alguém se ficou bom, você espera que a pessoa responda a verdade, mesmo que seja uma verdade ruim. Mas e se ela mentir para não te magoar? Isso é algo tão ruim assim? Vamos esquecer a mentira em sim por um minuto e analisar o motivo: a pessoa mentiu porque se importa com você. Isso não conta para nada?

As pessoas mentem para se proteger também. E tentar se proteger é algo tão natural quanto respirar. Isso não mostra que você é uma pessoa horrível, mostra apenas que você é, de fato, uma pessoa. Por que isso é tão condenável?

Todo mundo já mentiu uma vez na vida. Eu menti, você mentiu, Richard Nixon mentiu e Pinocchio, coitado, não vou nem começar a falar sobre ele. Não importa o porquê, todos nós já mentimos. Então por que condenamos tanto os outros quando eles mentem?

Não estou dizendo que todo mundo devia começar a mentir aleatoriamente, só acho que as pessoas podiam tentar refletir mais antes de começar a condenar alguém por ter mentido. Esqueça um pouco a mentira em si e olhe o motivo. Talvez você fizesse o mesmo se estivesse no lugar da outra pessoa. Mentiras podem ser evitadas, mas existem situações em que elas são necessárias. Isso é inevitável. E aceitar o inevitável é algo completamente... bem... aceitável. E aceitar o fato de que as pessoas mentem pode levar a um auto-conhecimento maior. Você passa a conhecer mais seus limites, o que você seria capaz de fazer em certas situações e também o que outras pessoas seriam capazes de fazer nas mesmas situações. E isso nada mais é do que saber conviver consigo mesmo e com os outros.

I lie.
You lie.
He lies.

Everybody lies.

Sempre achei o House um cara sábio.

domingo, 30 de maio de 2010

Lágrimas sinceras

- Pai, por que tá todo mundo chorando?
- Porque o vovô se foi, filho.
- Mas ele não vai voltar?
Jacob tinha apenas 4 anos, ele não entendia o que era morte. Ter que explicar isso para seu filho era um sacrifício para Tom.
- Senta aqui, campeão.
Ele se sentou no colo do pai, com o olhar mais inocente e interessado do mundo.
- Lembra quando o papai explicou pra você como você tinha nascido?
- Lembro.
- Então, as pessoas nascem, ou "vêm" para o mundo, mas elas também morrem, ou "vão embora". Só que esse "ir embora" é para sempre.
- Então o vovô não vai voltar?
- Não, Jake. Dessa vez o vovô não volta.
Jake olhou para as próprias mãos, que estavam repousadas em cima de suas coxas. Um olhar profundamente triste toma conta de seu rosto, e Tom sentiu um nó na garganta.
- Mas eu gostava tanto dele, papai.
- Eu sei, Jake. Todos nós gostávamos. E ainda gostamos, não é? Não é só por que ele se foi que vamos deixar de gostar dele.
- É... acho que sim. Mas para onde ele foi?
- Ele foi pra perto do papai do Céu, filho.
- Ah... mas e se os médicos trouxerem ele de volta?
- Os médicos já fizeram tudo que podiam, Jake. Infelizmente, não há mais nada.
Jake simplesmente abaixou a cabeça e voltou a observar suas mãos.
- E se eu tentasse, papai?
Tom sentiu que ia desabar. Era difícil demais fazer isso. Ele tinha forças para suportar a dor de peder um pai, mas não de ver seu filho passar por isso. Ele abraçou Jake e começou a chorar.
- Pai, o que foi? Me desculpa, não queria fazer o senhor chorar.
- Jake...
Quando se acalmou, ele tentou explicar que não havia mais nada que eles pudessem fazer.
- Filho, o vovô já foi. Eu também queria muito que ele voltasse, mas não vai ser possível.
- Já sei!
Jake se levantou e saiu correndo. Vinte segundos depois ele voltou correndo com o celular do pai nas mãos, sorridente.
- Vamos ligar pra ele, papai! Se eu falar com ele, sei que ele vai querer voltar.
Foi a gota d'água. Tom abraçou Jake com força e voltou a chorar. Por mais que o garoto não entendesse o que estava acontecendo, ele sabia que Jake era quem mais estava sofrendo aquela perda. Depois de algum tempo, ele se recompôs e tentou explicar novamente para Jake o que havia acontecido.
- Filho, onde o vovô está não tem telefone. Não existe nenhuma maneira para falarmos com ele, porque para o lugar onde ele foi, não tem volta.
- É muito longe?
- É o lugar mais longe que existe.
- Então ele foi pro Japão?
- Não, Jake. É mais longe que o Japão.
- Ele tá na lua?
- Também não. É mais longe que qualquer lugar que você possa imaginar.
- Então se ele não vai voltar, eu não vou ganhar presente, certo?
- Certo.
- Poxa... mas eu nem queria presente, só queria que ele voltasse. Só isso já seria o melhor presente do mundo.
Isso era doloroso demais para Tom. Ele precisava acabar com isso.
- Jake, quer se despedir dele?
- Ele tá aqui?
- Mais ou menos. O corpo dele está aqui, mas está dormindo e não vai acordar. Porque a mente dele foi para aquele lugar mais longe que existe, entende?
- Acho que sim... Mas onde ele tá?
- Logo ali, vamos.
Tom segurou na pequena mão de Jake e o conduziu ao caixão. Por mais mórbidos que caixões sejam, ele não podia deixar de reparar na beleza que aquele tinha. Era uma peça muito bem trabalhada em madeira reluzente, com alças adornadas em ouro e as inscrições "Thomas Cross, marido, pai e avô amado. Que proteja sua família e os receba com alegria." na tampa.
- Pai, o que é aquela coisa de madeira?
- Aquilo é um caixão, Jake. É ali que o vovô está.
- Por que?
- Porque é onde as pessoas que estão do mesmo jeito que o vovô ficam. Depois fecham o caixão e colocam naquele buraco no chão.
Explicar essas coisas fez Tom perceber que nunca mais veria o seu pai, que agora tudo que possuía sobre ele eram lembranças.
- Por que?
- Para que ele possa dormir para sempre, já que ele não vai acordar.
- Mas já tentaram jogar água nele?
- Já, filho.
- E dar tapas na cara dele?
- Já.
- Gritaram no ouvido dele?
- Gritaram.
Eles seguiram até o caixão em silêncio. Quando chegaram lá, Tom colocou Jake no colo, para que ele pudesse ver dentro do caixão.
- Oi, vovô.
- Jake, ele não vai...
- Eu sei, papai, ele está dormindo. Mas eu queria dizer oi para ele antes que colocassem ele naquele buraco.
- Pela última vez?
- É.
- Então não quer aproveitar e falar algo pra ele?
- Quero.
- Você quer que eu saia?
- Não, papai. Pode ficar aqui comigo?
- Claro, filho. Não vou te deixar.
Jake deslizou sua pequena mão para dentro da mão do pai e a apertou com força. Ficou calado por um tempo, apenas olhando para o rosto do avô. Tom começou a lembrar de todos os momentos em que viu os dois juntos. Eles estavam sempre sorrindo, brincando, se divertindo. Eles eram felizes juntos.
- Vovô, não sei porque você decidiu ir embora. Eu gostava muito do senhor, você era o melhor avô do mundo. Eu vou sentir falta de todas as vezes que brincamos de bola juntos, que você corria atrás de mim pela casa, tentando me fazer cócegas, de como você nunca me comprava presentes caros, mas que eram os melhores mesmo assim, de como você me protegia sempre que eu tinha medo de algo. Eu sei que o papai pode me proteger, mas vou sentir falta mesmo assim. Se você decidiu ir embora por algo que eu fiz, me desculpe, eu não quis te magoar. Queria muito que você voltasse, vovô, mas o papai me disse que isso é impossível.
Tom estava envolto em lembranças de Jake e Thomas juntos, mas foi tirado dos seus devaneios pelo silêncio. Todos haviam se calado para prestar atenção no que Jake dizia. Jake estava chorando e sua voz tremia.
- Se você decidir voltar, eu vou ficar muito feliz, vovô. Mas se você não voltar, quero que saiba que eu nunca vou esquecer de você e que vou amar o senhor para sempre.
Tom, e todos os presentes no funeral, estavam chorando.
- Eu te amo, vovô.
Jake colocou a mão no seu bolso e retirou algo que Tom não reconheceu a princípio, mas depois de algum esforço lembrou do aniversário de 1 ano do filho, quando Thomas o presenteou com o primeiro carrinho que ele havia construído quando era criança. Aquele carrinho foi o primeiro de uma coleção de mais de cem carrinhos que Thomas construiu ao longo dos anos. Era o mais valioso de todos. Jake o depositou sobre o peito do avô.
- Pai, pode colocar as mâos dele em cima do carrinho?
Jake lutava para não chorar mais.
- Claro, filho.
Ele fez o que o filho havia pedido.
- Quer falar mais alguma coisa?
- Não... posso só dar um beijo nele?
- Claro.
Tom segurou Jake para que ele pudesse beijar o avô dentro do caixão.
- Tchau, vovô.
- Tchau, pai. Vou sentir muito sua falta.
Quando Tom virou para se retirar, percebeu que todos os presentes haviam formado uma fila atrás dele.
- Tom, eu sinto muito. Jake, vai ficar tudo bem. - disse Ed, o primeiro da fila um velho amigo de Thomas.
Jake não respondeu, apenas olhava para baixo. Ed deu um beijo na testa do garoto e se retirou com lágrimas nos olhos. O processo se repetiu até que todos os presentes haviam cumprimentado Tom e Jake. Eles ficaram em silêncio durante um tempo, lembrando dos seus momentos com Thomas. Alguns minutos depois o padre iniciou a cerimônia, e então todos puderam finalmente se despedir do velho e querido Thomas.

Quando a cerimônia havia terminado, Tom e Jake caminhavam para o carro de mãos dadas e Tom percebeu que Jake apertava sua mão com força.
- Tudo bem, filho?
Jake afirmou com a cabeça, mas visivelmente se segurava para não chorar.
- Você quer chorar?
Então Jake abraçou o pai com força e começou a chorar. Um choro sincero de dor e saudade. Tom não conseguiu segurar, abraçou Jake e também derramou algumas lágrimas.
- Eu vou sentir muita falta dele, papai, eu o amava muito.
Jake estava chorando como nunca havia chorado na vida.
- Eu sei, filho, eu também. Mas nós precisamos continuar nossas vidas. Teremos sempre lembranças boas do vovô conosco, mas precisamos seguir em frente.
- E como faremos isso?
- Sendo fortes, filho. Por mim, por você, e pelo vovô. Seja forte.